segunda-feira, 16 de março de 2020

Transição Inverno-Primavera

  Ventor 16.03.2020

Passou sobre mim e, praticamente, todos vós, mais um inverno - o Inverno e a Primavera de 2016.


Como são belas as flores rosa, estas como as flores das malvas, dão um belo tom rosa no verde dos nossos campos

Não fiz grandes caminhadas este inverno mas, ainda deram para observar as flores - as minhas Flores de Inverno. Eu e as flores nunca nos abandonamos. Nem eu a elas nem elas a mim.


Caminhava eu, há dias, na serra da Mira, entre os lírios selvagens, e aqui e ali, me esperavam as papoilas

Olhamos-nos, observamos-nos e, até o meu amigo Apolo sorri lá de cima. Ele sabe que as flores de inverno encantam. Todos os anos, o velho inverno passa o testemunho à sua jovem irmã, sempre acompanhado de flores. As flores nascem e morem todo o ano e, são as flores de inverno as que mais me encantam.


Também o tão amarelo desta espécie de campainhas, lá estava me esperando

Porquê? Talvez porque, nem a dureza do tempo as faça desistir. Elas levantam as suas pétalas para dizerem, "olá, Ventor"


 Caminhando na serra de Sintra estavam as ericas, as minhas belas florezinhas rosadas ...


 ... e, junto, as belas urzes brancas. Bastam elas para me levarem à serra de Sintra

Quando comecei a ter mais tempo para voltar a observar as flores, normalmente, tinha o hábito de esperar a Primavera e o Verão, como nos meus tempos de criança, pelos arredores das minhas Montanhas Lindas. Mas comecei a verificar que, de facto, as flores me observavam a mim, durante todo o ano. E foi no Inverno que eu resolvi observar melhor as flores e escrever sobre elas, neste blog, chamando-lhe, "Flores de Inverno". Com o tempo resolvi mudar-lhes o nome para, "Flores da Vida". Comecei a pensar que, realmente, as flores são a vida de todos nós, são a nossa fonte de vida. Não esqueço as flores do pessegueiro, da macieira, da pereira, da ameixeira ... e, tantas outras. 



Também passei pelo Cabo Raso e lá estavam as flores selvagens do açafrão. Belezas de inverno para animar as minhas caminhadas

Eu observava a sua beleza e, depois, aguardava, dia após dia, a chegada dos frutos que via crescer e esperava que eles amadurecessem e, quantas vezes, os comia verdes, como a maçãs e as peras.




 Também no Cabo Raso, estavam as silene litorea da areia e essas coisinhas brancas de cima, para me animar

Com a chegada da Primavera chegam mais flores que se juntam a tantas outras que existem pelo inverno fora. E não são poucas! Até as papoilas caminham a meu lado, durante o inverno. Já me apercebi que o Inverno não tem coragem de não tratar das flores para que a menina bonita de todos nós, a sua irmãzinha,seja recebida com as suas honras.


Mas pelos nossos campos a brancura de outras silenes rupestris ... 


 ... e o colorido da pervinca, animam as minhas caminhadas

Mas não é só isso! Caminhava, há dias, na serra de Sintra e fui visitar umas urzes brancas, muito especiais, para ver como estavam as suas flores. Do seu interior chegou uma voz. "Tem calma, Ventor, olha que não és só tu que dedicas tempo às flores da urze! Eu sei que tu, tal como eu, gostarias muito de voltar a caminhar entre as urzes roxas. Mas tu e eu temos de nos contentar com estas urzes branquinhas. E não te esqueças que a menina Primavera, voltará a espelhar a sua alegria com a sua auréola de flores, entre as quais estarão as flores da urze branca". Claro que eu continuo a acreditar nos meus amigos duendes! Se não acreditar, o mundo não presta!


 Estas flores que não sei como se chamam, emproam-se para me verem beber o café e comer o travesseiro, por Sintra

Acredito pois! Ela vai chegar hoje às 04:30 horas da manhã e, como não me vai ver, esperará que a luz do nosso amigo Apolo nos alcance e nos faça voltar a rir, dançar, pular, abrir os braços e contemplar tudo o que, apesar de tudo, este mundo ainda tem de belo.




Mas Sintra também é uma terra de camélias que se põem bonitas para receber o Ventor

As flores são lindas e tu trazes mais, Primavera. Espero continuar a caminhar entre as flores que o Inverno nos deixou e aquelas que tu nos trarás.

Bem-vinda, Primavera!

terça-feira, 24 de julho de 2018

A Raposa

   Ventor 24.07.18

Na neve, no frio, no calor, as raposas fartam-se de procurar como alimentar-se pelo ano fora.

 Raposa. Foto do site Pixabay

Mas elas trabalham tanto para arranjar comer que precisam mesmo de descansar e, se for verão e estiver calor. nada melhor que um sítio onde o ar circule bem. Se não há ar condicionado, tem de se inventar.

Raposa. Foto do site Pixabay

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Pintassilgo, um dos penudinhos que sempre me encantou

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Abeleza das papoilas

  ventor 23.07.2018

A beleza das papoilas está sempre presente. Ei-la!



Seja sobre o campo verde ou sobre uma tela, seja sós ou junto de outras flores, elas dão sempre nas vistas.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Ventor no Poulo dos Cagordos

  Ventor 12.12.17

O Ventor diz-me que há no nosso mundo, pontos de referência que nunca esquecemos e esses pontos têm várias cambiantes. Há as grandes cidades praticamente todas iguais na vivência humana. A locomoção é a mesma em todas elas. Carros, aeroportos e aviões, linhas férreas e comboios, navios, ónibus, machibumbos, eléctricos, ... Ou então, transformamos essas cidades em corredores da história e olhamos a sua face mais rugosa dos séculos que as moldaram.

Olhamos os seus palácios, os seus castelos, as suas confrontações entre o velho e o novo. Utilizamos os seus nomes e, à medida que pronunciamos esses nomes sentimos que essa sonoridade se entranha em nós. Por exemplo: o Ventor diz-me que se pronunciar nomes como Granada, como Córdoba, como Valencia, como Paris, como Berlim, Varsóvia ou qualquer outra, tudo se conjuga para fazermos várias caminhadas.

Mas agora reparem nestes dois animais, estes belos garraninhos e em tantos outros que passam por aqui, nos nossos blogs..

Filhotes garranos a tornarem-se rapazotes

Estes, o Ventor observou-os o ano passado no Poulo dos Cagordos, nos montes da Assureira. Diz o Ventor que nestas circunstâncias o mundo é outro completamente diferente dos focados atrás. Aqui, olhar os garraninhos é como se revivesse mais de meio século para trás e fizesse a sua própria história com estas belezas sempre a caminhar a seu lado.

As mamãs descansam mas sempre de olho nos seus rapazotes que aprendem a viver e a reconhecer o seu mundo

Era assim há 60 anos, há 50 anos, há 40,  há 30, ... há um! Apenas há, a mais, os pinheiros que se vêm do Poulo dos Cagordos, fazendo caminhar os nossos olhos sobre as Fontes até ao Poulo da Fraga. De resto está lá tudo! Os cavalos, as vacas, as montanhas galegas, a Derrilheira do lado contrário a rebocar todas as montanhas de Adrão, rumo à Pedrada, a serra Amarela de quem ninguém fala, Bordença, Soajo, até lá está o cortelho de pedra onde se abrigavam do mau tempo, o guarda Lameira, o Zé Ribeiro, o pai do Ventor, o Ventor e tantos outros.

Ali sentado um pouco a observar todas aquelas paisagens envolventes, diz-me o Ventor que lhe saíam do chão e, por entre os fetos, aquele som familiar dos tamancos daqueles velhos amigos que ainda por lá caminham sempre que o Ventor por lá passa

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Pintassilgo, um dos penudinhos que sempre me encantou

terça-feira, 21 de novembro de 2017

A Transumância

  Ventor 21.11.2017

O Ventor fala-me de Transumânsia. A transumânsia dos gados de Soajo e de Adrão, da serra de Soajo para a serra da Peneda na segunda metade do verão. Ele conta-me tudo!

Este era o Poulo de Adrão nos montes Laboreiro.

Era neste local, em redor do Poulo de Adrão, que a malta de Adrão tomava conta do seu gado e o mantinha controlado por ali, para que não fosse roubado por estranhos, nem atacado pelos lobos que antigamente podiam atacar os vitelos e não só. Nos anos 50 haviam bastantes lobos nas nossas serras.

Uma manhã de Agosto de um ano da Graça do Senhor da Esfera, muito cedo, o Ventor, ainda pequeno, vinha da lavoura da veiga com uma braçada de ervas e alguns pés de verde milho partidos, para alimentar uma vitela que se chamava Nova. Ao chegar à fonte do Cabo do Eido, atravessou à sua frente uma manada de vacas desconhecidas e, entre elas, um grande boi. Era o “boi das vacas” de Soajo. Era assim que ele era conhecido pelos de Adrão, e o Ventor ficou muito admirado de ver ali o boi de Soajo. O Ventor conheceu-o logo porque o tinha visto junto à casa florestal do Vidoeiro, quando a malta de Adrão foi autorizada pelo Guarda da Floresta, o seu amigo Martins, a levar o gado para a área florestal dos montes que se debruçam sobre Bordença. Era um bom boi e perguntou aos dois homens que matavam a sede na fonte e as orientavam, porque andavam ali as vacas das gentes de Soajo.

 A Naia

Esta foto, representa a Naia, hoje atravessada por aquele estradão que pretendia chegar até ao Poulo do Muranho, era o local oposto aos montes Laboreiro, o outro planalto em frente.

Eles disseram-lhe que as vacas iam para os montes Laboreiro pelos lados de castro Laboreiro. O Ventor, sempre que ouvia falar em Castro Laboreiro só lhe vinham à mente os cães daquela região e o seu Jolim, um cão que seu pai teve quando ele era pequenino. De resto calculava que devia ser tudo igual.

Os carros de bois, as vacas, as ovelhas, as mulheres vestidas de negro, pelos que morriam e pelos que se metiam audaciosamente nos caminhos de França. Pelos caminhos da aldeia andariam as galinhas e os porcos e caminhariam, à frente das suas gentes, as vacas e as ovelhas. Não haveriam grandes diferenças!

Mas o Ventor só sentiu a força da transumância quando o seu amigo, o Joaquim Brasileiro (que o Senhor da Esfera o tenha a seu lado, pois veio a saber que faleceu), lhe veio dizer: «Ventor, amanhã não podemos ir às trutas». “Não podemos porquê”? – Perguntou-lhe o Ventor.

 “Amanhã vou com o meu pai ou com o meu avô, ainda não sei, levar as vacas à Peneda, porque os de Soajo já aí vão com elas e as nossas vão ter de descer da Naia e pôr-se a caminho”!
Estavam em Agosto e os montes secos e com pouco comer. Estava a começar a grande caminhada rumo aos Montes Laboreiro. Nessa época o Ventor ainda era muito pequeno para perceber tudo o que se passava à sua volta, mas sabia que os de Adrão se revezavam na sua vez de guardar os gados que iam para os montes Laboreiro. Era a vezeira!
 
Fraga da Nédia
Esta é a base sul dos montes Laboreiro. A grande fraga em frete é conhecida por Fraga da Nédia. Quando era miúdo, havia uma história que contavam sobre duas meninas que ali morreram. Elas eram duas irmãs, pastorinhas que andavam naqueles monte, e foram par o topo daquela fraga pentearem-se uma à outra. Depois, na brincadeira, uma caiu e agarrou-se pendurada num pinhasco, pediu ajuda à irmã que lhe foi dar a mão e caíram as duas pela fraga abaixo. Era uma boa chamada de atenção para todos aqueles que se aventuravam por recantos que não deviam. E era eficiente, pois no meu caso, lembra-me sempre delas.
 
A vezeira era formada por gados de várias pessoas que durante algum tempo, normalmente semanal, era guardado por duas ou três pessoas, que se iam revezando durante o tempo que as vacas parassem, neste caso, pelos lados dos montes Laboreiro.
Aí o Ventor sentiu a estucada dos vizinhos. O seu amigo iria tratar dos seus afazeres para levar as vacas rumo à Peneda e a pesca das trutas ficava para mais tarde. Diz o Ventor: - “Eu andava sempre com a ideia de me afoitar em ir até Montes Laboreiro e apreciar aquilo tudo, de que o meu pai me falava, mas por várias razões, nunca aconteceu. Era uma boa estirada para fazer só e a tempo. Não sei se os riscos seriam grandes ou pequenos mas eu gostava de correr riscos»


Mãe e filho continuam a dar vida às minhas Montanhas Lindas
«No entanto, aos 15 anos, parti rumo a Lisboa e só alguns anos mais tarde tive oportunidade de conhecer Castro Laboreiro e os penhascos daqueles montes que, para mim, seriam diabólicos, atendendo às observações que fazia da Fraga da Nédia que olhava com muita atenção a partir da Portela de Baixo e, também, quando caminhava pela Naia, rumo ao Muranho e à Pedrada. Nessa primeira caminhada por Castro Laboreiro fomos de Lisboa pelo Gerês, entramos em Espanha pela Portela do Homem, atravessamos umas aldeias espanholas e entramos em Portugal pelos lados de Castro Laboreiro. Foi uma bela caminhada, mas já chegamos tarde e não deu para ver grande coisa pois ainda queria ver as minhas montanhas lindas com dia».
 
 

Elas são tão lindas que merecem todo o nosso cuidado. São mesmo as rainhas das montanhas

«Não tendo tido oportunidade de participar na última das transumâncias do meu tempo, resta-me recordar as dificuldades que a minha gente tinha, nesses tempos, para levar de vencida a sua caminhada neste mundo. Hoje, creio que não haverá ninguém a levar de Soajo ou de Adrão ou de qualquer outra aldeia, os seus gados para os Montes de Castro Laboreiro ou arredores. Mas numa conversa, em Adrão, com a irmã mais nova do meu amigo Joaquim, a Fátima, fiquei a saber que foi o seu pai o último homem de Adrão a levar as suas vacas da serra de Soajo para os montes Laboreiro e que ela, terá sido a última mulher a partilhar esse trabalho, ajudando-o».
 
Agora temos trilhos de asfalto, mas os do nosso gado são inesquecíveis
Quando as Primaveras eram quentes, as vacas, começavam a subir mais alto pelos fins de Maio e pelo mês de Junho as noites aqueciam e elas começavam a perder a vontade de vir para as cortes. Começavam por ficar pelos Poulos da Chãe do Boi, depois pela Naia e de seguida começavam a ficar pelo Muranho até se afoitarem a subir à Corga da Vagem, ao Curral do Pai, à Seida por onde ficavam todo o verão, ou então, algumas delas eram levadas para a Peneda pelos meados de Agosto. O gado rapava as montanhas da serra de Soajo e, a partir dessa altura, havia famílias que tinham por tradição praticar a transumância para a Peneda, onde havia mais comer, e lá por fins de Setembro e às vezes já no Outono, as vacas regressavam dos montes da Peneda bem gordinhas, sendo algumas levadas para as feiras dos «Primeiros de Soajo», onde, a sua venda renderia mais alguma «notas». Notas de 100$00 (cem escudos).
 
A vossa pose é majestática
«Esta era mais uma das formas de viver das gentes de Adrão e Soajo, até ao último quartel do século XX. As vacas rumavam à Peneda e os seus donos acompanhavam-nas, revezando-se, abrigando-se dos lobos, das noites frias e das chuvadas, nos célebres «iglos de pedra» - os nossos Cortelhos. Nos cortelhos eles faziam o velho «caldo d’unto», para lavar as tripas (como diziam então) e comiam o bacalhau, muita vezes contrabandeado de Espanha com pão de milho e, sempre que possível, pão com chouriço e presunto que, nessa altura do verão, nem sempre havia».
 

Os iglos de pedra são os nossos verdadeiros monumentos

«Depois veio a nossa Diáspora em grande escala, com a ida dos homens para França e depois daqui para a América e não só, ficando apenas as mulheres, que de seguida começaram também a sua partida para mundos que só ouviam falar. As aldeias esvaziaram-se de gente, de animais, de tudo! Na prática, em muitas delas, pouco mais ficou que as ossadas daqueles que partiram para a última viagem. O resto já tu sabes».