Ventor 25.05.2026
Estas coisas são mesmo belas. A mim, o caterpilar, faz-me arrepiar. É só olha-lo!
Ventor 25.05.2026
Estas coisas são mesmo belas. A mim, o caterpilar, faz-me arrepiar. É só olha-lo!
Ventor 29.07.05
São péssimos os trilhos por onde caminha o nosso Planeta Azul.
Todos sabemos,
em traços gerais, o que reza o protocolo de Quioto e creio também que todos
sabemos que ninguém irá cumprir assim-assim e muito menos, rigorosamente, o
dito protocolo. Por muito que se tente, todos os países que acorreram a colocar
o seu sinete no protocolo de Quioto, têm grandes problemas para poderem cumprir
o estabelecido. A nossa civilização está tão desconchavada relativamente a
estes assuntos tão graves que os políticos arranjaram maneira de caminhar nos
pressupostos científicos de que tudo tem de mudar, e todos sabemos que vamos
ter de mudar, mas como?
As palavras
bonitas, as linhas bem escritas, não resolvem nada! Os políticos tentam passar
sobre as linhas finas traçadas por cientistas politizados e políticos com
vontade de se colarem aos sabedores dos sistemas da ciência. Criaram assim uma
hidra de sete cabeças, pronta a vasculhar no vácuo já que nenhum ser vivo se
quer aproximar dela.
As sociedades
ocidentais, as mais avançadas cientificamente e mais poluidoras, acompanhadas
aqui e ali por nichos sociais, em vias de desenvolvimento nos moldes das
mesmas, estão em decadência, mas novos gigantes se preparam para consumir
tantas energias poluidoras como elas já consomem. Vem aí a China e a Índia (e
não só), para fazer, em termos globais, maior carrego sobre o que se pretende
com o protocolo de Quioto.
Estas
flores são chicórias
As primeiras,
começam a bater-lhes à porta, milhões de pessoas com cara de fome, devido ao
desemprego e continua a ser necessário dar-lhe de comer e, para isso, vai ser
necessário consumir mais energia, relançando novos objectivos pouco
consentâneos com o Protocolo do nosso descontentamento. As segundas, com fome
ou sem ela, mas fundamentalmente com muitos milhões que se acham no pleno
direito de adquirir as mordomias ocidentais, embora o protocolo de Quioto seja
mais brando com elas, vão ser a estucada final neste Planeta cheio de Arrelias.
Portugal, se
bem me recordo, está autorizado a aumentar 27% a emissão de gases com efeito de
estufa, relativamente a 1990. Mas, segundo conhecedores da nossa praça já vai
com 14% acima dos objectivos autorizados. Um bom começo para um sinete,
colocado em Fevereiro, no dito protocolo. As energias renováveis? Bem que, à
primeira vista, serão uma das melhores hipótese para renovar também um jovem
progresso, que permita à humanidade prosseguir em caminhos mais limpos e sem
que lhes faltem as mordomias essenciais indispensáveis.
Quanto a mim,
acredito plenamente que a grandiosidade deste mundo está no términos. Assim,
sonhando, eu continuo a ver a falta de água prolongar-se no tempo, os calores
insuportáveis a ajudar aos incêndios por esse mundo fora, cá dentro e lá fora,
que alguns facínoras teimam em achar piada. Cada vez que rodo na estrada, rodam
à minha frente atrasados mentais, alguns em grandes bombas que atiram as beatas
pela janela, garrafas de plástico vazias sem água, guardanapos, copinhos de
iogurtes, pacotes de cigarros vazios e sei lá que mais.
Uma vergonha o
que se vê nas estradas das nossas terras e mais ainda por gente que, pelo
menos, aparentemente, deveriam ter outras maneiras de viver e conviver em
sociedade mas, infelizmente, é esta a sociedade em que nos inserimos. Qualquer
recanto serve de caixote de lixo de pessoas sem escrúpulos.
As
aves ainda bailam para nos animar e se animarem
Será que o céu
continuará azul? E vamos continuar assim! Se tiverem um pouco de atenção
verificarão que os labregos estão em franco progresso. Há papás que gostam de
ver os filhos inocentes a pontapear animais que estão habituados a conviver com
crianças e, por isso, fáceis de apanhar. Gostam de os ver fazer asneiras de
todo o tipo como deitar os lixos para o chão, estragar pequenas árvores
plantadas, destruir flores e canteiros.
É nestas
pequenas coisas que deve começar a luta por um melhor ambiente e essa só pode
ser levada a cabo por todos os cidadãos, mas pelo que vejo hoje, nas escolas,
grande número dos futuros homens e mulheres de amanhã só aprendem a via mais
fácil para viver atropelando os outros. Eu vejo isso nas minhas caminhadas e
nas minhas tentativas de encontrar ervas verdes para o meu Quico. À falta
delas, semeei-lhe uma hortinha cá em casa, mas se falta a água para a rega? Se
já não há água para regar o cebolo em pequenas hortas, imaginem como será
quando não houver água para regar a minúscula horta do meu Quico!
Água fonte de vida
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Pintassilgo, um dos penudinhos que sempre me encantou
Ventor 06.07.24
Por entre as árvores e candeeiros, em Vilamoura, a presença do meu amigo Apolo, fonte de vida
Fui-me vestindo, ao mesmo tempo que fazia exercícios de aquecimento e arranjava forma de ir ganhando ânimo para as restantes tarefas matinais, fazer a barba, tomar duche, tomar o pequeno almoço, calçar-me e imaginar o que fazer para continuar o meu dia o mais operacional possível e contrariar as investidas da minha coluna.
Fazia falta pão para o almoço e eu achei ideal ir buscar o pão, o mais longe possível dentro das minhas possibilidades que, no momento, não estavam a ser grande coisa, para poder dar algum alento aos discos lombares que, em certos momentos, precisam de afago.
Disse que ia buscar o pão, mas que ia a pé, e não sabia quando vinha, pois ia aproveitar para dar uma caminhada, tanto quanto pudesse. Aproveitei para caminhar, ir ao banco e trazer o pão do Borel. Sentei-me para beber um café, numa mesa junto à janela, de onde posso fazer a cobertura visual do IC 19, direito à serra de Sintra e aproveito para dar uma olhada para a serra e o Palácio da Pena, lá longe, bem alcandorado sobre a serra, numa posição majestática, mais parecendo um ninho de águia, sempre aprumado e altivo, pronto para abraçar todo o mundo e arredores.
Pois como devem imaginar, da serra de Sintra, apesar da sua pequena altura, consegue-se abarcar o Mundo! E se eu abarco com a minha vista, desde o Borel, aquele belo castelo e o castelo abarca o Mundo, eu Ventor, através dele, também abarco o Mundo.
Bebi o meu café e peguei no pão, regressando a casa e, mais uma vez, não utilizei o caminho mais curto, mas segui pelo mais longo. Subi em direcção do Casal de S. Brás e, depois, desci por um novo jardim que vai ser grande, segundo o Presidente da Câmara me disse, pois irá abarcar toda a zona da Falagueira ocupada pelas barracas junto à ribeira do mesmo nome.
Águas correntes límpidas, e pacíficas, com belos penudos, aguardamos nos nossos ambientes
Ao descer o jardim, perante uma réstia de calor matinal, já junto ao meio dia, apercebi-me que nesta altura do ano, ainda haviam lindas borboletas! Fiz um desvio e, aproximei-me do "caneiro" da Falagueira, é assim que eu chamo à ribeira, e decidi espreitar o local onde as borboletas foram pousar, depois de virem sempre a dar à asa à minha frente, até junto dos arbustos e do canavial ali existente.
Espreitei e verifiquei que junto a umas canas, o local era escuro. Aproximei-me mais e, imaginem, descobri uma rocha que muita gente terá deixado de ver devido às "machambas" ali existentes e ao matagal junto à água corrente, mas conspurcada pela poluição como todas as águas correntes, hoje em dia.
Voltei a ver as borboletas, lindas como sempre, e ao tentar regressar ao caminho, ouvi um, pzz , pzz, pzz, e achei que era um passarinho que estava ali, se calhar como eu, mas com outro fito na observação das borboletas. O pzz, pzz, voltou-se a repetir, e eu voltei a olhar. Qual o meu espanto, quando uma voz magnífica se levanta do meio da rocha e me chama: "Ventor, Ventor"! Eu começo a olhar e não vejo mais nada que a rocha negra! A voz repete: "Ventor, que vês"? Vejo uma rocha - disse eu - uma rocha negra!
Uma rocha de basalto, tirada da Wikipédia
"Pois" - diz a rocha - "é assim que toda a gente me vê. Não passo de uma rocha! Mas eu sou mais que isso, Ventor. Lá que as outras pessoas não me vejam, eu ainda aceito, mas tu Ventor!? Tu não consegues olhar para a rocha e ver-me"?
Bem, eu estou reduzido a um simples observador dos homens, mas tu, estás para além de uma simples criatura humana. Por isso me tens passado despercebida, mas já agora, identifica-te e diz-me que fazes aí, como uma mera rocha negra?
Como calculas não tenho assim tanto poder que possa aperceber-me de todos os sons que ouvi através dos milénios!
E assim falou para mim aquela rocha negra: "Eu sou a desterrada de Vulcano, Ventor! Antes das Tâgides, a quem Camões pediu inspiração, e ainda muitos outros antes do Camões, era eu quem inspirava os poetas que antecederam todos aqueles de quem as gentes, através dos milénios, têm ouvido falar. Eu, Ventor, sou uma Tâgide dos princípios do Mundo, ainda do tempo em que o Tejo era embalado pelas ninfas das fontes como uma corguinha onde se acumulavam as escorrências das águas das nascentes e das chuvas".
"Eu percorri todos os caminhos dos arautos da poesia, que através dos tempos têm cantado canções já esquecidas dos homens e do tempo. Vulcano furioso com a minha condescendência para com os primeiros habitantes desta linda terra que posteriormente veio a ser a tua Lusitânia, lançou-me um anátema e transformou-me nesta rocha negra, que tu vês! Por aqui tenho estado há milénios, desde o tempo que Vulcano revolveu toda esta terra e me transformou num amontoado de lava consistente e dura para toda a eternidade".
"Essas borboletas que tu tens vindo a apreciar, são as minhas companheiras de infortúnio. Foram elas que te foram buscar aí a cima, e te trouxeram até mim, pois eu sempre que te vejo passar, apetece-me falar-te, mas tu segues sempre apressado e determinado na persecução dos teus objectivos e nunca me atrevi a implorar-te o teu reconhecimento da minha desventura.
Hoje estás mais calmo, sem pressas e pronto a ouvir todos os desgostosos dos seus infortúnios e achei que estava na hora de alguém ficar a saber da minha existência aqui, em forma de rocha, a que muitos, já se atreveram a confundir com uma moura encantada".
macho-machon - A beleza animal e vegetal dependerá da nossa preocupação com o futuro
"As mouras de que falam são as ninfas que me guardam e que se transformam em borboletas e vão tentando inspirar as pessoas a terem forças, senão para cantarem as suas novas canções, pelo menos a continuarem a suportar, no seu infortúnio, o peso das injustiças".
"Mas olha Ventor, eu já fui feliz aqui, em forma de pedra negra, quando esta ribeira era percorrida por águas límpidas, e as suas encostas eram floridas. Esta já foi uma terra idílica, cheia de flores e muitos outros encantos da Natureza. Ainda há bem pouco tempo, alguns anos apenas, eu servia de lavadouro às mulheres da terra. Eu via por estas margens as crianças brincarem atrás das minhas borboletas, a apanharem flores e, deliciando-se a ouvir o cântico dos grilos e dos ralos.
Grilos - Uma beleza entre as ervas ... nos poulos das minhas Montanhas Lindas
"Viam saltar os gafanhotos e o esvoaçar das libelinhas azuis e verdes e banhavam-se nas águas límpidas que escorriam encostas abaixo, por entre salgueiros, abençoadas por S. Brás. Agora, só vejo à minha volta, a conspurcação total, que desce desde a serra da Mira, e se vai infiltrar naquele rio Tejo que eu já fiz o mais lindo de todos. O Tejo já foi invejado pelo Reno, pelo Sena, pelo Danúbio, pelo Tamisa" ...
"Todos os grandes rios da Europa já invejaram o Tejo, pela sua beleza bucólica, pelas suas águas puras, pelas suas Tâgides. O Reno teve o seu Anel de Nibelungo, o Danúbio teve o seu azul, as suas balsas e os seus cisnes, mas o Tejo teve na sua embocadura as partidas de grandes esperanças e as chegadas de fragatas cheias de mundos. Luta por isso tudo Ventor! Luta para que esta ribeira volte a ter vida limpa, para que a minha aparência, embora negra, volte a ser airosa e bela. Tão bela que as borboletas possam esvoaçar sob os raios de sol límpidos, onde Apolo possa continuar a passear o seu belo manto dourado espraiado sobre veludo azul, cosido com linhas de platina, e continue a fazer brilhar seus raios sobre estas águas".
Despedi-me da desterrada de Vulcano que ficou mergulhada no seu profundo lamento e parti para o almoço. Para trás ficaram também as borboletas num puro bailado aéreo exibindo as suas vestes multiformes e multicolores para que eu as recordasse como continuam belas na companhia da sua ama.
É de um bom ambiente que depende o nosso mundo e das flores, a sua beleza. Por aqui já houve carrasca e ainda as há da parte de trás viradas para Belas
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Pintassilgo, um dos penudinhos que sempre me encantou
Ventor 26.06.24
Perdizes
Vejam como são lindos os amigos do Quico, do Ventor e do Pilantras
Hoje caminhava num passeio da Amadora junto à divisória que bloqueia a entrada na Academia Militar. Quando me aproximei dos grandes espaços verdes, procurei espreitar por entre as grades a ver se avistava alguma ou algumas das minhas amigas perdizes que por ali andam.
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Pintassilgo, um dos penudinhos que sempre me encantou
Ventor 05.06.05
Olá, amigos!
Lumi era um búfalo amigo do Ventor.
O Ventor e o Lumi conheceram-se nas margens do Rio Lugenda.
Agora, o vosso amigo Quico, vai contar-vos esta história, tão linda quanto terrível, que ouviu ao Ventor. Como já sabem, ele esteve naquela famigerada guerrinha. Foi ali que aprendeu muito na vida! Só vos posso contar algumas coisas porque o Ventor não gosta muito de falar disso. Mas vai-me contando algumas histórias e eu filtro-as para vocês!
Contou-me, por exemplo, esta história a que chamou - Duelo na Savana
Diz o Ventor que histórias na savana se desenrolam todos os dias e há poucos que as contam porque, para além dos entretimentos nos safaris, há pouca capacidade para dar a conhecer aquele mundo belo, mesmo que selvagem.
A vida dos safaris é para ricos, tipos com grana, como dizem os nossos irmãos de além Atlântico. Depois dos safaris, o que querem é sopas e descanso e partir para outras caçadas que, o Ventor, a partir de uma certa altura, repudiou!
Mas, nas savanas, a vida é dura para os nossos lindos amigos que por lá caminham todos os dias. E, desta vez, eu vou contar-vos a história do Lumi, um búfalo de que o Ventor muito gostava.
Imaginem-se a olhar leões nas margens do rio Lugenda, olhando-vos, já ao cair da noite!
Lumi, nasceu no meio do capim, num vale da serra de Mecula, bem juntinho ao rio Lugenda, no norte de Moçambique. E, Lumi, poderia ter-nos deixado muitas histórias da sua vida se, por acaso, soubesse ler e escrever mas, os búfalos, ainda só têm a escola da vida. Vida dura, embora o seu trabalho seja só comer e dormir, pensarão muitos de nós. Mas não! A vida do Lumi foi como a vida de todos os búfalos e como a de todos os animais da savana, uma luta permanente! Ele nasceu lindo! Sua mãe começou logo a limpar-lhe o "fato" com que se apresentou perante Apolo, o amigo do Ventor e de todos nós e, ao ver o céu azul, "a tenda de Apolo", terá exclamado: «assim vale a pena»!
Este pequenino, podia ser o Lumi
Reparou que, à sua frente, os pastos eram verdes e, terá pensado que, no meio daqueles vales, tudo continuaria lindo e valeria a pena viver a vida de búfalo. Quando olhava para a sua mãe considerava-a uma bisarma, cheia de grandeza e força. Imbatível!
De repente, Apolo, o amigo do Ventor, na sequência da sua caminhada, partiu e Lumi apercebeu-se que à sua volta a escuridão era enorme. O terror apossou-se de Lumi. A sua segurança era apenas o cheiro de sua mãe e Lumi, sempre com a cabeça encostada à sua perna dianteira, nunca a largava no meio daquela escuridão horrenda. Ao fim dessa tormenta, começa a raiar, no horizonte, uma ténue luzinha e Lumi começava a observar os pontinhos brancos, no tecto da tenda. De repente, a leste, no horizonte, voltou a nascer outro sol e, ao romper da manhã, toda a família e amigos se espalhou, a comer a erva tenra. Lumi só tinha sentido para os tetos da mãe e não percebia aquele menear de cabeças à sua frente, pelo vale que desce encostas até às águas límpidas do rio Lugenda, numa azáfama permanente e sempre a dar ao dente.
O calor começou a subir e todo o seu Maralhal se começou a encostar pelas sombras frescas do grande arvoredo. Ali, mais em baixo, as águas do Lugenda, caminhavam ao encontro do seu receptor, o rio Rovuma e reflectiam nos grandes montes, a gloriosa luz de Apolo, o amigo do ventor.
Búfalos, sempre alerta!
Assim, por trilhos maravilhosos, Lumi ia crescendo e caminhando, dia após dia, ano após ano, ao lado de sua mãe, a quem prometera ser seu guardião e, também, ao lado dos perigos que povoam a savana.
Quando os aviões de guerra se aproximavam, fazendo passagens baixas sobre os vales e montes que se debruçavam sobre o Lugenda, o seu ronco, demoníaco, quebrava a monotonia e sossego à família de Lumi. Mas Lumi aprendeu que os aviões do Ventor não faziam mal à sua família e, por fim, ele já se levantava num pulo, sacudindo-se todo, cabriolando, à passagem do Ventor e seus amigos e orneava num som semelhante às vacas da Assureira do Ventor, como que a dizer: «salvé Ventor, verdadeiro rei das savanas, amigo da minha "gente" e da nossa terra que se espalha por todos os vales do Lugenda»!
A velhice, companheira da solidão. É na solidão que o búfalo perde o seu último combate
Nas margens do Lugenda, cheio de água pura nos tempos secos, ou nos lamaçais das suas margens nos tempos de águas revoltas provocadas pelas chuvas, os búfalos, companheiros do Lumi, sabem que devem permanecer sempre alerta, em defesa individual e do grupo, para tentar permanecer tanto tempo, quanto possível, a pisar os capins da savana.
Os anos foram passando e Lumi e os seus, tinham por adversários terríveis, os poderosos leões que, sós, em nada os atemorizavam mas, em grupos, eram demoníacos. Assim, desde pequenino, Lumi viu ficar para trás os menos capazes, por velhice, por doença ou feridos em lutas nupciais, tal como os bois fazem pelos vales da serra de Soajo. Sua mãe, que muito bem o soube tratar e ensinar, tinha-o preparado para a vida de terror que se vivia na savana. Mas sua mãe, já tinha deixado o grupo para sempre e Lumi recordava como ela tinha sido trucidada por um grupo de leões com os quais travara a sua maior luta de sempre em defesa daquela que lhe dera a alegria de se tornar o grande búfalo, "senhor" da savana.
Luta de morte - tudo à volta são leões
Foto tirada da Wikipédia de autoria de Caelio. This file is licensed under the Creative Commons Attribution-Share Alike 3.0 Unported license
Lumi cresceu, no meio dos seus, nessa luta permanente, entre os vários habitantes que, juntos, disputavam o seio da savana e, mais tarde, constituiu família que ajudou a alargar o seu grupo e com outros grupos acabaram de povoar, bem povoada, de belas manadas, as montanhas da região de Mecula e de todo o Lugenda que, em grandes manadas, como as "vezeiras", no Soajo, caminhavam ao sabor do crescimento do capim, como verdadeiras máquinas enfardadeiras!
Quando as máquinas do Ventor apareciam nos ares dos seus domínios as manadas constituídas por búfalos novos e outros mais atemorizados, corriam por baixo, por entre árvores e arbustos, deixando para trás um lastro de pó que subia, no ar, como o fumo de uma queimada!
Lumi, durante os seus anos de uma vida forte, caminhava sempre, junto dos seus, velando pela segurança de todos, estando sempre na frente da manada, na luta contra os leões esfomeados. O grupo do Lumi, numa terrível luta com leões, na defesa de sua mãe, chegou a isolar um leão de um grupo de 12 e desfazê-lo à cornada, lançando-o pelos ares de cabeça para cabeça, como se fosse uma bola, até o desfazerem todo. Esta foi a maior luta do Lumi! Mas a vida, na sua caminhada pelo tempo, prega-nos partidas a todos e Lumi não foi excepção. A velhice começou a apoderar-se de Lumi e, nas suas pernas, começou a faltar-lhe a força de outrora. Começou a ficar para trás, isolado, tentando apanhar mais umas ervas, deixando de acompanhar a manada, como sempre deveria ser feito. A velhice é meio caminho para o isolamento, para a solidão e, desta, para a morte.
Mais um pouco e apanhFaltam as forças e com elas a vontade de prosseguir nos mesmos trilhos da vida e isso leva a que um grupo de leões cerque o Lumi e não lhe dê oportunidade de fuga porque, à sua volta, estava a força da morte constituída por 10-12 leões e as suas pernas já não podiam partir para as lutas de que sempre tinha feito parte para salvação de todos. Agora, Lumi, estava só!
Lumi tenta defender-se à cornada, mas este gesto que obriga os leões a um movimento permanente, também o vai cansando. De repente um leão salta-lhe para cima do lombo e começa a morder-lhe a coluna, outro agarra-lhe o rabo, outros vão mordendo por onde podem e, as últimas forças das pernas do Lumi são para se manter de pé, não se deixar cair porque, logo que caia, tudo terminará! Lumi consegue berrar alto pelos seus companheiros e, dois deles, filhos do Lumi, voltam para trás, em direcção do chamamento e vêm Lumi, de pé, com seis leões agarrados a ele e outros tantos a tentarem tomar posição.
Os dois búfalos investem furiosamente sobre os leões, enquanto outros se aproximam. Os leões debandam espavoridos e o velho Lumi a sangrar por vários pontos do seu corpo, sem nunca ter caído, não tendo dado chances de lhe agarrarem a garganta, tenta ainda investir contra os leões, mas mal se mexe. Os dois filhos e outros amigos levaram-no a tentar apanhar a manada e os leões, já cansados, ficaram para trás a vê-los partir.
Quando no chão, já pouco ou nada há a fazer
Lumi foi metido no meio da família e dos amigos mas, o calor apertava e, ao cair da tarde, têm de ir beber água às margens lamacentas do rio Lugenda. Descem todos rumo ao rio e empanturram-se de água. Sede saciada, preparam-se para partir mas o grupo dos leões acompanharam-nos ficando na sua retaguarda, deitados, a vê-los beber. Sai tudo da água e tomam o seu rumo mas, na saída dos últimos, estava o Lumi.
O Lumi tinha dificuldades em sair da água. As pernas estavam atoladas nos lamaçais, continuava a sangrar das dentadas dos leões e o seu corpo tornava-se cada vez mais pesado. Quando os últimos búfalos estavam a sair da água, os leões continuavam com o olhar no Lumi.
Alguns búfalos voltam atrás para ajudar o Lumi, mas ele não tem forças para sair. Um búfalo investe sobre os leões, outro segue-lhe o encalço e outros preparam-se para lhes seguir o exemplo, os leões que eram muitos fogem, mas duas leoas intrépidas entram, água dentro, e atacam o Lumi dentro de água pela última vez. Lumi sem forças e com as pernas presas nos lamaçais, não aguenta o impacto e cai. Uma leoa ferra-lhe os dentes na grande garganta e a outra segue-lhe o exemplo e, Lumi, debate-se, mas preso no lamaçal pisado, cheio de buracos, nada consegue fazer.
Foto tirada da Wikipédia de autoria de Corinata. This file is licensed under the Creative Commons Attribution-Share Alike 3.0 Unported license
Morte de uns, satisfação de outros. É este o lema na savana onde a luta é atroz. Na savana, até os mais fortes caem nas garras dos mais fracos. Apenas é necessário saber aguardar o timing
Os búfalos que foram atrás dos leões regressam, olham a água e vêm que já nada conseguem fazer pelo seu velhadas. Enquanto a sua veia jugular se esvai em sangue, Lumi ainda os vê quando o branco do seu olho começa a tomar posição sobre a pupila negro-castanha. Ele olha as árvores da margem, olha os amigos e vê, pela última vez, o céu azul daquele que tinha sido o seu mundo. No seu último suspiro ainda terá dito: "adeus companheiros"!
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Pintassilgo, um dos penudinhos que sempre me encantou