- | Ventor
- 04.02.04
Alguém disse
que as andorinhas já andam aí?
Um dia, não
muito longe, se calhar, mas eu espero que não, diremos: "as andorinhas não
voltaram"!
Pessimismo?
Não! Uma realidade evidente e quase certa! Mas as andorinhas são, para mim,
animais muito especiais! Um dos maiores prazeres que eu levarei desta vida é o
meu diálogo travado com as andorinhas por terras do Alentejo. Já salvei a vida
a uma pequenina que caiu do ninho à minha frente. Coloquei-a, sob minha
protecção, numa esquina de um quintal e, ali, a defendi uma tarde dos gatos das
vizinhanças e não tardou muito, andavam os pais a dar-lhe de comer, ali, mesmo
à minha frente!
As andorinhas também vão à missa, em S. Bento da Porta Aberta
Tão contentes
estavam, que não faziam um único voo sem passar por cima da minha cabeça, como
sinal de reconhecimento. Antes da noite chegar, aproveitei o afastamento dos
pais, peguei num escadote, calcei umas luvas de borracha lisa, peguei na
pequenina e coloquei-a no ninho! Quando os pais chegaram foram direitos á que
deveria estar no chão. Atrapalhados por não a verem, subiram ao ninho para dar
de comer à outra. Ao verem as duas, o chilreio foi de tal ordem que nem dava
para acreditar.
Saíram em mais
uma passagem baixa sobre a minha cabeça e não tardaram em regressar para darem
mais comer às duas! Ali ficava eu, com o Martini na mão a dialogar com as
andorinhas, à minha direita, a olhar a água espelhada do Mira lá em baixo e a
ver, do lado de lá do rio, as cabras da Tieta do Agreste (era assim que eu lhe
chamava em honra da telenovela brasileira que andava por aí)!
Andavam lá,
todos os dias, umas cabras junto ao rio e eram o meu entretimento e do pai do
Tomás, vê-las ao cair da noite, juntarem-se a umas rochas onde iriam pernoitar!
Ainda a tempo, também antes do cair da noite, eu e o pai do Tomás e o primo,
descíamos ao rio para ouvir a sinfonia da nossa passarada e o recolher de
todos. As felosas cantavam a alegria da Primavera, mesmo quando tramadas pelos
cucos que lhes roubavam o ovo para colocar o seu!
Quando
subíamos, já as nossas andorinhas estavam deitadas e só na manhã seguinte,
voltávamos a ter a sua companhia! E para além delas, à medida que o robe que
Apolo usava se estendia sobre as costas do Mira, afinando o cântico à
passarada, aparecia o nosso amigo cuco a desafiar o vosso amigo Ventor para
mais uma desgarrada! A chegada das andorinhas são a primeira expressão da
Primavera que se aproxima!
Elvas,
bombas de gasolina
"Vês,
Ventor" ... disse-me uma andorinha quando no verão passado eu ia a caminho
de Cáceres ou Granada, já não tenho a certeza! Uma das vezes metemos gasolina
nessa bomba ... "o calor é tanto, que já nem água temos para construir
as nossas "palhotas"! Aproveitamos os resíduos de água, óleo e
gasolina para misturarmos com um pouco de terra e palha seca, para fazermos as
nossas tijoleiras!
O nosso bico
quase rebenta de tanto sacrifício que fazemos para tentarmos criar e
conseguirmos levar os nossos rebentos de volta que, provavelmente, nos
substituirão no próximo Verão na eventualidade de um azar! Já não sei se
teremos força para leva-los connosco e menos ainda se conseguiremos voltar com
eles"!
Elas tinham
razão! Este mundo está a ficar cada vez pior, também para as andorinhas.
Sem comentários:
Enviar um comentário