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quarta-feira, 26 de junho de 2024

A perdiz e o Ventor

 


Perdizes

Vejam como são lindos os amigos do Quico do Ventor e do Pilantras.

Hoje caminhava num passeio da Amadora junto à divisória que bloqueia a entrada na Academia Militar. Quando me aproximei dos grandes espaços verdes, procurei espreitar por entre as grades a ver se via alguma ou algumas das minhas amigas perdizes que por ali andam.

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O ninho de uma perdiz, com ovos

Por dentro, junto às grades, há um caminho de terra batido e eu fui olhando e, um pouco mais além, lá estava uma perdiz sobre as areias brancas, levantada, a olhar-me. Continuei a andar de olhos na perdiz e vejo junto dela alguns perdigotos. Fui-me aproximando e a perdiz não fugia. Eu não tinha a máquina e não fiz o movimento de preparar a máquina para o tal click. Os perdigotos que contava de oito passaram para cinco mas outros terão fugido para o interior das ervas altas, onde passei a ver um ou outro. Começaram a fugir e a perdiz ficou só, olhando-me. Entre nós estava apenas uma grade de ferro.

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A perdiz que vi hoje estava como essa mas a olhar directamente para mim

Disse-lhe: "menina, estás a guardar os teus filhotes"? Ela empertigou-se muito direita, praticamente de pé, para mim, olhando-me fixamente. Continuei a falar para ela e ela não arredou pé. Ali ficou no meio do caminho, sem uma única erva para a camuflar. Para não a perturbar, continuei a andar e a falar para ela e ela deu umas passadas na minha direcção e até parecia que me queria ouvir. Os seus rapazotes, já senhores do seu nariz, aguardavam no meio das ervas, as ordens da sua mãe.

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Um perdigoto. Os filhotes dessa perdiz já eram mais espigadotes

Eu fiquei com a ideia de que ela me perguntava: "aquela coisa preta que tu me apontas, às vezes, não a tens? Não vês como os meus filhotes são bonitos? Ficavam lindos numa foto"!

As Libelinhas


Dragon-fly

As libelinhas são um dos meus encantos. Quando caminho nas margens dos rios, procuro sempre, durante a época devida, encontrar libelinhas. Na ribeira da Falagueira, já vi libelinhas vermelhas esvoaçando sobre as águas, mas coisas destas, assim tão verdinhas, ainda não tinha visto por cá.


Uma bela libelinha verde

Disseram-me que estavam por aqui para apoiar o Ricardo na baliza de Portugal. Claro que o Ricardo não seria o meu guarda-redes, mas como quem manda pode e quem manda é o Scolari, eu também apoio, agora, incondicionalmente, o Ricardo. Tudo isto faz parte das Arrelias deste Planeta, mas ainda bem que assim é, pois se assim não fosse, não estaria vivo!

A companheira da primeira

O mais engraçado, é que são duas libelinhas diferentes e estão exactamente na mesma posição. Eu nem sabia a qual tirar a foto antes de fugirem, mas optei pela de cima, depois ela voou e regressou a outra para o mesmo sítio, tirando-lhe eu a foto também sem me mexer de onde estava. Trocaram as duas de local! Parece que disse: «agora vai tu»!

Não se esqueçam de deixar as libelinhas em Paz.. Não as arreliem!




terça-feira, 25 de junho de 2024

Bichos Peludos


Bicho peludo

Este planeta está louco ou eu já não controlo nada. É difícil acompanhar a evolução desta maravilha redonda que gira no espaço e a que poderei chamar um invólucro de bichos. Sim porque nós também somos bichos. Uns mais outros menos! Senão vejamos. Pela evolução que isto leva há zonas do Globo que não me admiraria nada que ainda se pratique ou se venha a praticar canibalismo. Não? Não sei, não sei! Mas hoje não vou teclar de coisas tão drásticas. Vou teclar sobre peludos.

Estas coisinhas lindas para uns e feias, quanto baste, para outros, vão transformar-se em belezas voadoras. Mas fazem-me uma confusão dos diabos! Eu estava habituado a vê-los nascer no meio das ervas e matos pela Primavera e Verão e agora, começo a vê-los nascer no Outono e no Inverno!

Claro que isto até poderá ser normal, para mim não. Para mim, ver nascer bichos destes no frio do Inverno é algo de outro mundo. E posso dizer-vos que fiquei muito admirado! Senão vejam. Fui dar uma das minhas passeatas numa das minhas serras e, caminhando, procurava encontrar algo novo, algo que para mim fosse novidade nesta altura do ano e estava a pensar em flores. Em flores selvagens que tropeçamos pelo ano fora e descobri umas pequenas maravilhas brancas e rosas acompanhado por uma garça, à distância.

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Adoro ver estas belezas quando isoladas, dizendo-nos olá

Tentei procurar outras flores e comecei a olhar para as ervas e pequenas moitas à minha volta e, de repente, sai-me uma flor, mas peluda. Uma beleza e foi o suficiente para perder ali algum tempo com estes meus amigos/as, de rabo para o ar para tentar ver o máximo e não pisar nenhum. Tarefa árdua!

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Haviam vários, mas nada comparado com aquilo que em tempos vi nos vales das minhas montanhas. Eram às centenas, em grupo

Uma arrelia que este planeta teima em não sair dela e porque acho que os dias quentes fizeram proliferar os ovos das minhas lindas borboletas mais cedo. Não são só as árvores que se começam a vestir mais cedo, mas também as fadas dos bosques estão com pressa de fazer companhia ao vosso amigo Ventor.

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Estas devem ser daquelas belas amarelas que já mostrei por aqui

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Estas devem ser filhotas daquelas beldades albi-negras amorosas que ou eu ou o Quico já mostramos aqui a fazer amor, lembram-se?

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Deixa-me agarrar bem Ventor e depois podes dizer o que te apetecer

As mães delas conversaram muito comigo e tal como eu admiraram-se muito de ver, o ano passado, tojos floridos de um amarelo tão intenso que mais pareciam uma enorme tapeçaria na qual convivia uma enorme catrefa de bichos voadores, ente os quais as minhas belezas multicoloridas. Hoje, 60% dos tojos estão secos e os outros 40% estão a começar a florir.

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A mesa está posta e suas excelências vão se servindo, vamos ver 

Neste momento gostava muito de saber se algumas destas maravilhas vão resistir aos frios que certamente ainda caminharão sobre elas. Mas, se calhar, não será por acaso que serão peludas, embora em pleno Outono eu encontrasse uma bem carequinha! 

domingo, 23 de junho de 2024

Zebras


As belezas listadas da savana africana

 As zebras - segundo a visão do Ventor

As zebras são animais lindos e encantadores que animam os olhos de quem as possa apreciar em plena savana africana misturadas com os gnus, seus companheiros de caminhada, ou mesmo nos Jardins Zoológicos, onde enchem de alegria a pequenada e os seus avós. Apesar de serem animais belos e que nenhum mal fazem ao homem, o espírito assassino deste, tem procurado dar cabo delas e as gerações futuras só poderão continuar a apreciá-las se as gerações presentes soubessem preserva-las e mantê-las para herança dos seus filhos.

O mesmo se poderá dizer de todos os outros animais, incluindo o homem, que vagueiam nesta bola giratória enquanto os elementos o permitirem. Basta dedicarem-se um pouco à Astrofísica para se aperceberem do perigo que todos corremos. O Ventor, por exemplo, anda coxo e, segundo ele me contou, só um raio cósmico o poderá ter atingido na barriga da perna deixando-o a pão e laranja.

Mas ele até é capaz de ter razão. Os raios cósmicos andam aí a fazer fogo ao alvo e são um perigo permanente. Para além desses perigos permanentes temos ainda outras possibilidades de ficarmos tão mal na nossa Caminhada pela nossa Via Láctea que podemos desaparecer num ápice. Vejam o que dizem os cientistas. Há mais de 100 milhões de buracos negros na esfera conhecida e a confusão é tão grande que podemos imaginarmo-nos presos por araminhos, sempre prontos a rebentar. Vejam a seca que nos está a atingir! Diz o Ventor que acredita que sejam coisas do Marduk, porque ele anda aí! Este Marduk, é aquilo a que os cientistas chamam o Planeta X ou "décimo planeta". Pensa o Ventor que pode ser aquele de que ele vos fala na Mesopotâmia! Mas se é, está tudo lixado! Juntando a isto a ambição desmedida do homem, ficamos pendentes do improviso.

Mas continuemos com as nossas amigas zebras. Elas embelezam, de facto, as savanas!

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 São uma beleza estas amigas do Ventor

O Ventor diz que, lá em Moçambique, só viu as zebras do ar, quando o avião "caminhava" por cima e elas caminhavam por baixo. Isto acontecia mais quando estas máquinas desciam um pouco deixando os animais atormentados com o barulho desenfreado daquela coisa metálica que, de vez em quando, os incomodava quando aparecia, de repente, nos céus do seu mundo. Mais precisamente, nos céus do Revia e do rio Lugenda onde se podiam avistar boas manadas de zebras e bois cavalos (gnus). Por isso o Ventor tem vontade de voltar a África, ao Moçambique, ao Lugenda!

Mas o Ventor diz que recorda e nunca esquecerá os seus gritos que se fazem ouvir lá longe, na savana. Havia, em Marrupa, uma lângua que se dirigia para ocidente e bastante afastada da nossa zona, do AM62, talvez uns 15 kms, haviam perus selvagens, segundo lhe diziam. Mas o Ventor, que se fartou de trepar esses quilómetros, diz que via realmente aves grandes mas que para ele não passavam de abutres e, ainda hoje, quando a refeição calha peru, diz: "vamos ao abutre"!

Na verdade, à custa dos perus selvagens, ainda hoje, o som típico das zebras anda nos ouvidos do Ventor. Segundo o Ventor e eu acredito nele, o som mais característico dos animais, em África, é o arrulhar das rolas e os estridentes gritos das zebras. Quando nessa lângua de Marrupa os chamados perus selvagens fugiam à frente do Ventor e dos seus amigos, ouvia-se, lá longe, ainda à frente dos perus, o característico grito das zebras a que não podemos chamar relinchar!

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Os animais de grande porte, são todos das savanas

Mas as zebras têm uma boa corrida (65 kms por hora) e, quando se apercebem da presença do homem, vão-se afastando sempre e só com um todo o terreno são alcançáveis. Era sempre muito longe que os caçadores profissionais apanhavam os bois cavalos (gnus) que vendiam para serem comidos por pretos e brancos, como para o Exército e a Força Aérea. As carnes que o Ventor e os amigos comiam eram, quase sempre, de caça, como boi cavalo, facochero (uma espécie de javali africano), galinhas do mato, changos (várias espécies de antílopes) e outros.

A propósito de corridas, a velocidade da zebra está cotada em 65 kms/hora, enquanto que a cotação do gnu é bastante mais elevada, 80 kms/hora e como andam sempre juntos, sendo a velocidade do leão de 80kms/hora também, é caso para pensar se, como dizem alguns especialistas, o leão prefere a carne da zebra à do gnu por ser mais saborosa para si ou se será de facto por ter mais possibilidades na caçada? Se calhar é as duas coisas!

Mas voltando à conservação das espécies, diz o Ventor que merecem grande apoio todos aqueles que, de boa fé, tudo fazem para manter, junto de nós, estes belos animais listados. Todos sabemos que os homens tal como todos os outros animais, aprendem com os seus erros. E tem sido baseado nos muitos erros cometidos pelos homens que, muitas das espécies têm desaparecido do nosso convívio. Aqui foco apenas o extermínio das zebras sul-africanas. Segundo os homens amigos do Ventor que zelam pela estabilidade e harmonia de todos os nossos companheiros em vias de extinção, a África do Sul tinha tudo para ser um verdadeiro paraíso na Terra.

Tinha uma grande riqueza de fauna, uma paisagem harmónica e um clima excelente o que fazia deste canto do nosso Planeta uma maravilha para os animais selvagens, incluindo-se as zebras. Mas os colonizadores boers que terão sido um grupo de gente inculta e egoísta, como todos os que atingiram as costas de África, ao penetrarem para o interior do Veld encontraram uma região rica em animais selvagens, cheia de espécies de zebras, manadas de elefantes, girafas, rinocerontes brancos, antílopes, etç. e logo começaram  a chacina!

Os animais selvagens africanos, bem como homens, os Bosquímanos, foram exterminados com a mesma fúria de homens insensatos e hoje, uns e outros, encontram-se quase exclusivamente em parques nacionais.

 

A quagga deixou-nos para sempre

As zebras quaggas, era assim que os hotentotes lhe chamavam, existiam em grandes bandos pelo Veld onde os colonizadores queriam instalar as suas granjas e por isso, na sua óptica, teriam de as abater o que fizeram até lhes acabarem com a espécie, tendo sido morta, em Aberdeen, em 1758, o último exemplar selvagem. Só em alguns dos jardins zoológicos foram mantidos alguns exemplares, durante cerca de um século, morrendo a última zebra quagga, no jardim zoológico de Amesterdão.

Também a zebra da montanha, assim chamada por só viver nas montanhas no extremo sul da África, a mais parecida com o burro, estará quase extinta se é que ainda existe, pois em 1956 só haviam cerca de 75 exemplares no Parque Nacional da Zebra da Montanha, na Província do Cabo.

Como vêm, o nosso amigo Ventor ensina-me a olhar os nossos amigos selvagens com outros olhos e a preocupar-me com eles. Por isso, eu coloco aqui o que o Ventor me ensina para aqueles que gostam de saber muitas coisas e quando levarem os vossos filhos ou netos aos jardins zoológicos que se encontram por esse mundo fora, não se esqueçam de os ensinar a respeitar os outros animais selvagens.

Para isso, devem começar por os ensinar a respeitar os companheiros de casa! Cães, gatos (pois claro), pássaros, ratinhos e ... todos os outros. Por exemplo, nas touradas, onde o bicho homem teima em divertir-se com o sofrimento do touro, não os ensinem a ir lá. Deixem que a bestice humana termine por frustração, já que ninguém está com vontade de fazer uma lei que meta no bom caminho esses "calhaus" humanos também a passear-se entre nós que nos atingem furiosamente.

Lumi


A história de um búfalo que o Ventor chamou Lumi

Olá, amigos!

Lumi era um búfalo amigo do Ventor.

O Ventor e o Lumi conheceram-se nas margens do Rio Lugenda.

Agora, o vosso amigo Quico, vai contar-vos esta história, tão linda quanto terrível, que ouviu ao Ventor. Como já sabem, ele esteve naquela famigerada guerrinha. Foi ali que aprendeu muito na vida! Só vos posso contar algumas coisas porque o Ventor não gosta muito de falar disso. Mas vai-me contando algumas histórias e eu filtro-as para vocês!

Contou-me, por exemplo, esta história a que chamou - Duelo na Savana

Diz o Ventor que histórias na savana se desenrolam todos os dias e há poucos que as contam porque, para além dos entretimentos nos safaris, há pouca capacidade para dar a conhecer aquele mundo belo, mesmo que selvagem.

A vida dos safaris é para ricos, tipos com grana, como dizem os nossos irmãos de além Atlântico. Depois dos safaris, o que querem é sopas e descanso e partir para outras caçadas que, o Ventor, a partir de uma certa altura, repudiou!

Mas, nas savanas, a vida é dura para os nossos lindos amigos que por lá caminham todos os dias. E, desta vez, eu vou contar-vos a história do Lumi, um búfalo de que o Ventor muito gostava.

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Imaginem-se a olhar leões nas margens do rio Lugenda, olhando-vos, já ao cair da noite!

Lumi, nasceu no meio do capim, num vale da serra de Mecula, bem juntinho ao rio Lugenda, no norte de Moçambique. E, Lumi, poderia ter-nos deixado muitas histórias da sua vida se, por acaso, soubesse ler e escrever mas, os búfalos, ainda só têm a escola da vida. Vida dura, embora o seu trabalho seja só comer e dormir, pensarão muitos de nós. Mas não! A vida do Lumi foi como a vida de todos os búfalos e como a de todos os animais da savana, uma luta permanente! Ele nasceu lindo! Sua mãe começou logo a limpar-lhe o "fato" com que se apresentou perante Apolo, o amigo do Ventor e de todos nós e, ao ver o céu azul, "a tenda de Apolo", terá exclamado: «assim vale a pena»!

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Este pequenino, podia ser o Lumi

Reparou que, à sua frente, os pastos eram verdes e, terá pensado que, no meio daqueles vales, tudo continuaria lindo e valeria a pena viver a vida de búfalo. Quando olhava para a sua mãe considerava-a uma bisarma, cheia de grandeza e força. Imbatível!

De repente, Apolo, o amigo do Ventor, na sequência da sua caminhada, partiu e Lumi apercebeu-se que à sua volta a escuridão era enorme. O terror apossou-se de Lumi. A sua segurança era apenas o cheiro de sua mãe e Lumi, sempre com a cabeça encostada à sua perna dianteira, nunca a largava no meio daquela escuridão horrenda. Ao fim dessa tormenta, começa a raiar, no horizonte, uma ténue luzinha e Lumi começava a observar os pontinhos brancos, no tecto da tenda. De repente, a leste, no horizonte, voltou a nascer outro sol e, ao romper da manhã, toda a família e amigos se espalhou, a comer a erva tenra. Lumi só tinha sentido para os tetos da mãe e não percebia aquele menear de cabeças à sua frente, pelo vale que desce encostas até às águas límpidas do rio Lugenda, numa azáfama permanente e sempre a dar ao dente.

O calor começou a subir e todo o seu Maralhal se começou a encostar pelas sombras frescas do grande arvoredo. Ali, mais em baixo, as águas do Lugenda, caminhavam ao encontro do seu receptor, o rio Rovuma e reflectiam nos grandes montes, a gloriosa luz de Apolo, o amigo do ventor.

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Búfalos, sempre alerta!

Assim, por trilhos maravilhosos, Lumi ia crescendo e caminhando, dia após dia, ano após ano, ao lado de sua mãe, a quem prometera ser seu guardião e, também, ao lado dos perigos que povoam a savana.

Quando os aviões de guerra se aproximavam, fazendo passagens baixas sobre os vales e montes que se debruçavam sobre o Lugenda, o seu ronco, demoníaco, quebrava a monotonia e sossego à família de Lumi. Mas Lumi aprendeu que os aviões do Ventor não faziam mal à sua família e, por fim, ele já se levantava num pulo, sacudindo-se todo, cabriolando, à passagem do Ventor e seus amigos e orneava num som semelhante às vacas da Assureira do Ventor, como que a dizer: «salvé Ventor, verdadeiro rei das savanas, amigo da minha "gente" e da nossa terra que se espalha por todos os vales do Lugenda»!

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A velhice, companheira da solidão. É na solidão que o búfalo perde o seu último combate

Nas margens do Lugenda, cheio de água pura nos tempos secos, ou nos lamaçais das suas margens nos tempos de águas revoltas provocadas pelas chuvas, os búfalos, companheiros do Lumi, sabem que devem permanecer sempre alerta, em defesa individual e do grupo, para tentar permanecer tanto tempo, quanto possível, a pisar os capins da savana.

Os anos foram passando e Lumi e os seus, tinham por adversários terríveis, os poderosos leões que, sós, em nada os atemorizavam mas, em grupos, eram demoníacos. Assim, desde pequenino, Lumi viu ficar para trás os menos capazes, por velhice, por doença ou feridos em lutas nupciais, tal como os bois fazem pelos vales da serra de Soajo. Sua mãe, que muito bem o soube tratar e ensinar, tinha-o preparado para a vida de terror que se vivia na savana. Mas sua mãe, já tinha deixado o grupo para sempre e Lumi recordava como ela tinha sido trucidada por um grupo de leões com os quais travara a sua maior luta de sempre em defesa daquela que lhe dera a alegria de se tornar o grande búfalo, "senhor" da savana.

Luta de morte - tudo à volta são leões

Foto tirada da Wikipédia de autoria de Caelio. This file is licensed under the Creative Commons Attribution-Share Alike 3.0 Unported license

Lumi cresceu, no meio dos seus, nessa luta permanente, entre os vários habitantes que, juntos, disputavam o seio da savana e, mais tarde, constituiu família que ajudou a alargar o seu grupo e com outros grupos acabaram de povoar, bem povoada, de belas manadas, as montanhas da região de Mecula e de todo o Lugenda que, em grandes manadas, como as "vezeiras", no Soajo, caminhavam ao sabor do crescimento do capim, como verdadeiras máquinas enfardadeiras!

Quando as máquinas do Ventor apareciam nos ares dos seus domínios as manadas constituídas por búfalos novos e outros mais atemorizados, corriam por baixo, por entre árvores e arbustos, deixando para trás um lastro de pó que subia, no ar, como o fumo de uma queimada!

Lumi, durante os seus anos de uma vida forte, caminhava sempre, junto dos seus, velando pela segurança de todos, estando sempre na frente da manada, na luta contra os leões esfomeados. O grupo do Lumi, numa terrível luta com leões, na defesa de sua mãe, chegou a isolar um leão de um grupo de 12 e desfazê-lo à cornada, lançando-o pelos ares de cabeça para cabeça, como se fosse uma bola, até o desfazerem todo. Esta foi a maior luta do Lumi! Mas a vida, na sua caminhada pelo tempo, prega-nos partidas a todos e Lumi não foi excepção. A velhice começou a apoderar-se de Lumi e, nas suas pernas, começou a faltar-lhe a força de outrora. Começou a ficar para trás, isolado, tentando apanhar mais umas ervas, deixando de acompanhar a manada, como sempre deveria ser feito. A velhice é meio caminho para o isolamento, para a solidão e, desta, para a morte.

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Mais um pouco e apanhámo-lo

Faltam as forças e com elas a vontade de prosseguir nos mesmos trilhos da vida e isso leva a que um grupo de leões cerque o Lumi e não lhe dê oportunidade de fuga porque, à sua volta, estava a força da morte constituída por 10-12 leões e as suas pernas já não podiam partir para as lutas de que sempre tinha feito parte para salvação de todos. Agora, Lumi, estava só!

Lumi tenta defender-se à cornada, mas este gesto que obriga os leões a um movimento permanente, também o vai cansando. De repente um leão salta-lhe para cima do lombo e começa a morder-lhe a coluna, outro agarra-lhe o rabo, outros vão mordendo por onde podem e, as últimas forças das pernas do Lumi são para se manter de pé, não se deixar cair porque, logo que caia, tudo terminará! Lumi consegue berrar alto pelos seus companheiros e, dois deles, filhos do Lumi, voltam para trás, em direcção do chamamento e vêm Lumi, de pé, com seis leões agarrados a ele e outros tantos a tentarem tomar posição.

Os dois búfalos investem furiosamente sobre os leões, enquanto outros se aproximam. Os leões debandam espavoridos e o velho Lumi a sangrar por vários pontos do seu corpo, sem nunca ter caído, não tendo dado chances de lhe agarrarem a garganta, tenta ainda investir contra os leões, mas mal se mexe. Os dois filhos e outros amigos levaram-no a tentar apanhar a manada e os leões, já cansados, ficaram para trás a vê-los partir.

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Quando no chão, já pouco ou nada há a fazer

Lumi foi metido no meio da família e dos amigos mas, o calor apertava e, ao cair da tarde, têm de ir beber água às margens lamacentas do rio Lugenda. Descem todos rumo ao rio e empanturram-se de água. Sede saciada, preparam-se para partir mas o grupo dos leões acompanharam-nos ficando na sua retaguarda, deitados, a vê-los beber. Sai tudo da água e tomam o seu rumo mas, na saída dos últimos, estava o Lumi.

O Lumi tinha dificuldades em sair da água. As pernas estavam atoladas nos lamaçais, continuava a sangrar das dentadas dos leões e o seu corpo tornava-se cada vez mais pesado. Quando os últimos búfalos estavam a sair da água, os leões continuavam com o olhar no Lumi.

Alguns búfalos voltam atrás para ajudar o Lumi, mas ele não tem forças para sair. Um búfalo investe sobre os leões, outro segue-lhe o encalço e outros preparam-se para lhes seguir o exemplo, os leões que eram muitos fogem, mas duas leoas intrépidas entram, água dentro, e atacam o Lumi dentro de água pela última vez. Lumi sem forças e com as pernas presas nos lamaçais, não aguenta o impacto e cai. Uma leoa ferra-lhe os dentes na grande garganta e a outra segue-lhe o exemplo e, Lumi, debate-se, mas preso no lamaçal pisado, cheio de buracos, nada consegue fazer.

Foto tirada da Wikipédia de autoria de Corinata. This file is licensed under the Creative Commons Attribution-Share Alike 3.0 Unported license

Morte de uns, satisfação de outros. É este o lema na savana onde a luta é atroz. Na savana, até os mais fortes caem nas garras dos mais fracos. Apenas é necessário saber aguardar o timing

Os búfalos que foram atrás dos leões regressam, olham a água e vêm que já nada conseguem fazer pelo seu velhadas. Enquanto a sua veia jugular se esvai em sangue, Lumi ainda os vê quando o branco do seu olho começa a tomar posição sobre a pupila negro-castanha. Ele olha as árvores da margem, olha os amigos e vê, pela última vez, o céu azul daquele que tinha sido o seu mundo. No seu último suspiro ainda terá dito: "adeus companheiros"!

sábado, 22 de junho de 2024

O Falcão peregrino e o Ventor 2

 


Falcão peregrino

No Cartaxo, num prédio que tinha sido uma cavalariça, com as janelas altas onde só chegava de escadote para as conseguir abrir. Com pouca luz, ouvi um estrondo contra as vidraças de uma das quatro janelas, por onde entrava a luz. Vi uma ave pousada junto à vidraça e pensei que era um pombo. Disse-lhe que já o tirava dali, mas observei melhor e era um pombo grande de mais e verifiquei tratar-se de uma ave de rapina.

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Pela forma do corpo e cores das penas, com aquela cabeça de deus Hórus, só podia ser um falcão peregrino. Saiu da janela e voltou a voar contra outra mas como não conseguia a fuga tentou uma terceira vidraça e depois de tanto bater contra os vidros e de se pendurar na parede, tentou melhor situação no chão, à minha frente.

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O seu porte é mesmo semelhante ao Hórus dos egípcios. Já está pronto para fazer mais umas tentativas. Levanta voo e pronto! O ímpeto era tão grande que eu não sei como não partia os vidros ou dava cabo dele. Saí da cavalariça e deixei a porta aberta pois era a única forma que tinha de o ajudar. As outras portas estavam fechadas e a porta por onde eu saí não era visível devido a paredes que delimitavam os sítios que separavam os cavalos. Podia ser que ele visse a luz mas insistiu nas vidraças das janelas por onde a luz entrava. Comigo já cá fora, para ir em busca de uma manta para lhe colocar em cima quando estivesse no chão, continuava a ouvir os estrondos das suas tentativas no seu dilema de «ou saio ou morro».

O falcão peregrino e o Ventor 1

 


Falcão peregrino

No Cartaxo, num prédio que tinha sido uma cavalariça, com as janelas altas onde só chegava de escadote para as conseguir abrir. Com pouca luz, ouvi um estrondo contra as vidraças de uma das quatro janelas, por onde entrava a luz. Vi uma ave pousada junto à vidraça e pensei que era um pombo. Disse-lhe que já o tirava dali, mas observei melhor e era um pombo grande de mais e verifiquei tratar-se de uma ave de rapina.

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Pela forma do corpo e cores das penas, com aquela cabeça de deus Hórus, só podia ser um falcão peregrino. Saiu da janela e voltou a voar contra outra mas como não conseguia a fuga tentou uma terceira vidraça e depois de tanto bater contra os vidros e de se pendurar na parede, tentou melhor situação no chão, à minha frente.

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O seu porte é mesmo semelhante ao Hórus dos egípcios. Já está pronto para fazer mais umas tentativas. Levanta voo e pronto! O ímpeto era tão grande que eu não sei como não partia os vidros ou dava cabo dele. Saí da cavalariça e deixei a porta aberta pois era a única forma que tinha de o ajudar. As outras portas estavam fechadas e a porta por onde eu saí não era visível devido a paredes que delimitavam os sítios que separavam os cavalos. Podia ser que ele visse a luz mas insistiu nas vidraças das janelas por onde a luz entrava. Comigo já cá fora, para ir em busca de uma manta para lhe colocar em cima quando estivesse no chão, continuava a ouvir os estrondos das suas tentativas no seu dilema de «ou saio ou morro».

O corvo-marinho apresenta-vos penudos


Corvo-marinho, secando as penas


Este é um corvo-marinho, amigo do Ventor que se vão encontrando no rio Jamor

É uma beleza quando se banha nas águas límpidas do Jamor e se põe a secar as penas ao mesmo tempo que vai conversando com o Ventor. Ele fez-me uma proposta e eu aceitei. 

Todo entusiasmado disse-me: "Ventor porque não colocas num post alguns dos teus amigos penudos, daqueles lindos que tu tens espalhados por aí? Coloca-os aqui que eu apresento-os ao Maralhal. Nem precisarei de piar, ficarei sempre de asas abertas!

Como eu gosto de fazer a vontade aos amigos, cá deixo os meus penudinhos.

 Cá estão eles! São uma beleza, estes amigos do Ventor.

 

sexta-feira, 21 de junho de 2024

Lucanus


 Lucanus ou vaca-loura


Um lucanus cervus vai descolar dessa mão. Ele tem uma missão a de optar pela sua liberdade

As vacas louras ou Lucanus Cervus são escaravelhos. São, dizem os sabidos, os maiores escaravelhos da Europa e damos-lhe vários nomes. Para mim, só muitos anos depois vim a conhecê-los como abadejos.
 

Olhem para esta beleza! A pessoa que o segurou deve ter sentido um grande prazer na sua libertação. Todos temos direito à vida e à liberdade. 

Lucanus Cervus macho, foto tirada da Wikipédia

Lá vai ele, o lucanus cervus, em cima, caminhando e observando o seu mundo. É um animal em perigo de extinção. Há pessoas que julgarão uma parvalhice defendermos a continuidade de animais que, aparentemente, não servirão para nada mas estão redondamente enganados. Todo o ser vivo tem a sua missão neste planeta azul e nós como seres racionais, devemos olha-los como companheiros de caminhada. Não é por acaso que é uma espécie protegida pela legislação portuguesa e pela legislação europeia.

As larvas da vaca loura, podem durar de 1 a 5 ou 7 anos e podem atingir 10 centímetros de comprimento. Eu penso que hoje, lá pelos nossos lados, haverá mais hipóteses de as larvas dos lucanus cervus terem mais possibilidade de singrar na vida. No nosso tempo, todas as madeiras eram aproveitadas para lenha, o único combustível, então existente.

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Há muitos carvalhos mortos, como este, lá pelas bouças da Assureira, mundo ideal para o lucanus cervus que eu fotografei em 2006. Provavelmente hoje já não existe e não serviu para lenha. Nesse ano eu chorei por esse carvalho

Hoje há muitas madeiras podres a começar por carvalhos mortos cujos troncos apodrecem no chão sem que alguém lhes ligue. Já não têm a importância que tiveram outrora e as larvas têm despensas cheias para destruir 23 cm cúbicos de madeiras podres por dia. Há o senão dos fogos. Claro que os fogos também destroem as larvas das vacas louras como tem acontecido por aí. Os incêndios dos últimos anos, na serra de Soajo, com a destruição dos carvalhos da Brusca, e da mata de carvalhos do rio Ramiscal (entre outros), na serra de Soajo, são um exemplo da caminhada negativa para esta espécie e muitas outras.

Isto tudo vem a propósito porque, há poucos anos, caminhava eu armado em grande observador, pelos jardins de Monserrate, em Sintra e, a dada altura, encarei com um aglomerado de madeiras, como esse da foto em baixo. Fui espreitando e não me apercebia do objectivo daquela madeira. Por fim dei com o post e li, cuidadosamente, para que servia aquele empilhamento de troncos. É um processo que os defensores da biodiversidade têm para defender esse animal fabuloso, o lucanus cervus, que todos que pisam os bosques de carvalhos, e não só, deverão conhecer. Eu conheço-o da Assureira e dos carvalhos do ti Valente a caminho do Marco d'Além, em Adrão, onde uma vez apanhei um desses grandes com umas grandes mandíbulas, a que chamamos cornos.

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Depois dessas minhas caminhadas primitivas, lá pelo meu berço, só vi uma vaca loura (macho), o tal Lucanus Cervus, junto de uma barragem no Alentejo e a voar. Ainda tentou pousar numa azinheira mas, por qualquer razão, seguiu voo. Nunca mais vi nenhum ou nenhuma.

Já me tinha apercebido que estes animais correm perigos vários e vivem no limbo da existência, como já por aqui tinha escrito mas, depois de ver aquele amontoado de troncos, acho que devia voltar a dizer algo sobre eles.

Não esqueçam que todos os animais são preciosos na nossa caminhada, neste Planeta Azul.

As larvas da vaca loura chegam a atingir entre 8 a 1o cm e vivem entre 1 a 7 anos, enquanto os lucanus cervus têm uma vida curta de cerca de 15 dias a um mês.